Olá, Portugal [tour extra por dentro dos muros de Évora]

Morar no exterior é o sonho de muitos brasileiros. Eu, sem sombra de dúvidas, estava dentro dessa estatística. De uns meses pra cá meus pais começaram com um papo de se mudar. É claro que a Europa tava no topo da lista: a simplicidade da vida européia sempre me atraiu. Se eu acreditasse em reencarnação teria certeza que em alguma vida fui muito feliz naquele continente. Como não acredito, passei a pesquisar em blogs e vlogs sobre o tal estilo de vida europeu que tanto me atraiu, e descobri que era lá que eu me encaixava melhor. Aliás, isso tinha tudo a ver com a minha motivação para sair do Brasil: eu sentia que não me encaixava mais lá. O lugar, as pessoas, os pensamentos e a forma de viver... Parecia que eu estava no lugar errado o tempo inteiro. 
Hoje estou aqui, pisando em solo europeu, separada da Espanha, França, Alemanha, Holanda e onde quiser, por uma linha de trem e não mais por um oceano. Portugal foi escolhido pela facilidade do idioma e das oportunidades aqui devido ao fluxo luso-brasileiro. Morei aqui por três anos, chegando aqui aos sete, mas quando retornei a esses solos já não me lembrava de mais nada. Foi um baque. Passei meses idealizando esse lugar - devo dizer que ele superou minhas expectativas - e pesquisando sobre as experiências de outras pessoas. Todas elas diziam a mesma coisa: o começo é difícil, por mais que você saiba que é o melhor. O negócio é que eu nunca imaginei que o começo fosse tão difícil. Provavelmente você que está lendo isso não vai conseguir fazer ideia do quão difícil é o começo, assim como eu. Mas com começo eu quero dizer aquele começo bem comecinho mesmo... O primeiro dia. Quando cheguei na minha nova casa, por dentro dos muros de Évora e me deparei com o frio correndo pelos cômodos vazios da minha casa, a única coisa que eu queria era me enfiar no primeiro vôo para o Brasil. Na verdade, nem isso. Eu queria mesmo é voltar no tempo e nunca ter entrado naquele avião - porque eu não quero ver mais 9 horas de vôo tão cedo. Olhei em volta e a casa estava completamente vazia. Três andares, sete quartos, quatro salas, uma cozinha enorme, dispensa e área ao ar livre, preenchido só com paredes e portas. Comparada a minha casa de quatro quartos e uma única sala conjunta com a cozinha, parecia um sonho em teoria. Mas faltavam meus móveis, meus conforto, um sofá para sentar e assistir a TV com calma (ah sim, tinha uma televisão). Faltava um lugar para eu chamar de meu. Olhei pela janela e me deparei com pessoas que não falavam a minha língua exatamente - não nos entediamos muito bem pelo sotaque - e que eu julguei que sempre iriam me ver como "estrangeira". Pensei que para poder sair com as pessoas que eu mais gostava eu teria que atravessar um oceano inteiro, e foi aí que o coração apertou mais forte. Eu só me perguntava que porra eu tava fazendo. Como eu tinha largado tudo assim? Me sentia invadindo e sendo invadida. Mais que isso, eu me sentia vazia, como se tudo tivesse sido arrancado de mim. Bateu o primeiro desespero: eu não conseguia nem enxergar mais nada além da dor que eu tava sentindo. Tive uma crise de pânico horrível e não conseguia respirar, parar de chorar e não tremer. Eu sussurrava, quando tinha fôlego, que tudo o que eu queria era ter minha vida normal. Agora eu estava ali, num lugar desconhecido e sem volta. O segundo desespero veio quando eu percebi que eu não me sentia pertencendo a lugar nenhum. O Brasil não me satisfazia, era muito mais ou menos para eu voltar, mas aqui me faltava vida e pessoas que me completavam, alegravam. Me vi sem lugar, sem rumo e o pior de tudo: sem esperança. O desespero parecia que nunca ia passar, e tudo o que eu queria era voltar há três anos atrás quando a minha vida era normal. A questão é que eu sabia também que o Brasil mudou de três anos pra cá. Pessoas mais violentas, a responsabilidade de lidar com as burocracias e o país que não funciona, a forma estressante e baixa de qualidade de vida. Eu chorei durante o dia todo, cansada do vôo em que não consegui dormir, e eu não consigo descrever a dor que eu senti naquele momento porque não quero me lembrar. Mas foi quase como morrer - ou desejar morrer. 
E bom, esse foi meu primeiro dia. Um desespero e dor que eu achei que nunca fosse passar. E passou de uma forma incrível quando eu comecei a abrir meus olhos e, principalmente, meu coração. Tudo melhorou a noite. Eu moro em frente a uma praça muito movimentada, praticamente o centro do distrito onde moro. Ouvia da minha janela pessoas conversando durante toda a madrugada de quarta-feira. Pessoas vivendo com paz, em paz. Calmas. Alegres. E percebi que eu estava vendo tudo errado. Minha visão estava embaçada olhando para coisas que deixei pra trás - e muitas coisas que eu só achava que deixei, mas continuo carregando comigo, como algumas pessoas. Aquelas vozes me consolaram. As vozes dos tais desconhecidos, com o sotaque diferente e a quem eu achei que nunca fossem me ver como se ali também fosse meu lar. E na manhã seguinte, eu estava renovada. A partir daí, a vida se ornou incrível, e eu finalmente pude enxergar tudo aquilo que eu tinha lido sobre. É claro que eu também tinha tomado nota de todos os avisos que li "é normal se desesperar no primeiro dia, afinal é uma mudança muito grande, é uma vida nova". Mas eu tenho que dizer uma coisa: depois do primeiro passo para o exterior, o caminho que se abre é a melhor sensação do mundo. 

 explorando a pé o lugar onde moro.

Todas os brasileiros que sentem que o Brasil não é mais o seu lar deveriam tomar coragem e se mudar. Sério, eu super topo ser um incentivo a vocês. Eu gostaria que cada amigo meu que quer se mudar, se mudasse, explorasse comigo e consigo. Descobri que gastei muito tempo da minha vida num lugar que era pequeno demais para mim. Nesses últimos dois dias explorei Portugal de peito aberto, com o coração grande. E vos digo que: ESTOU APAIXONADA. A ideia de se mudar e recomeçar toda a sua vida pode parecer loucura, até mesmo quando se está aqui, mas você irá perceber que o mundo é muito maior do que se imagina.
  • As pessoas aqui são muito simpáticas. Cresci ouvindo - tal como grande parte do mundo - que o povo brasileiro é simpático (o que contradiz pesquisas que mostram que o povo brasileiro é o que menos sorri atendendo pessoas no trabalho hahaha). Devo dizer que os portugueses estão dando de mil a zero em muitas pessoas que encontrei pelas ruas no Brasil. É claro que não são todos, assim como não são todos os brasileiros também. A simpatia falsa aqui não existe. As pessoas falam o que se passam na cabeça - e por isso muitas vezes são mal interpretados. Elas são sinceras contigo.. Se eles estão sendo simpáticos, é porque eles estão realmente de bom humor, e aparentemente as pessoas estão muito de bem com a vida por aqui. Aquele povo a quem fiquei com medo de nunca me aceitarem como alguém além de estrangeira nunca me olhou diferente. Pelo contrário, fui tratada com carinho nas palavras por todas as pessoas que encontrei. Elas se prestam a te ajudar e a te dar dicas e informações sobre tudo! Vou dar alguns exemplos. Esses dias estava numa loja de móveis (tenho que falar sobre ela!!!!) e estava tampando a passagem (epa) de um senhor que queria ver o pé de mesa que eu estava cobrindo. Quando o vi atrás de mim levei um susto e abri espaço para ele pedindo desculpas. Ele então deu um sorriso e começou a indicar pra mim e minha família qual pé de mesa a gente deveria levar pelas experiências que ele teve. Outro exemplo foi quando meu pai foi comprar um microondas, e o vendedor - que ganha por comissão - pediu pro meu pai voltar no dia seguinte porque iria estar com desconto, Ou o cara da empresa da internet que indiciou a concorrente porque oferecia melhor o plano que meu pai queria. Eu não sei como explicar, mas parece que pessoas que querem tirar vantagem das outras são muito raras por aqui. As pessoas parecem unidas pra te ajudar. Te dão informações sempre muito atenciosas, e te atendem sempre sorrindo. Brincam, explicam tudo direitinho e te ajudam de todas as formas que podem. Fiquei tão preocupada achando que seria uma "estranha" aqui e eles me abraçaram e me acolheram mais que meu próprio povo.
  • Ninguém está nem aí pra você. É sério, gente. Eu não faço ideia de como explicar isso, mas as pessoas andam na rua num mundo só delas. E isso é ótimo! Elas não estão nem aí se você está bem vestida, mal vestida, com uma melancia na cabeça ou qualquer coisa assim. É um sentimento muito bom que eu nunca senti antes, como se você pudesse andar na rua sem ninguém estar te julgando. Você é e simplesmente é. Ninguém está tomando conta da sua vida. Você consegue notar nas pessoas que elas estão vestidas para elas mesmas e da forma que lhes agrada apenas. Ninguém fica te olhando porque você tá fazendo pose em frente a um monumento ou qualquer coisa assim. Muito menos pela forma que você age ou se veste. Você pode viver num mundo sem se preocupar com o resto. E é um puta alívio da cobrança que eu estava acostumada, de ter que estar sempre impecável e fazendo tudo certo para as pessoas não saírem por aí comentando. Ah, e o seu consumismo diminui muito. É algo que flui. Você simplesmente deixa de se importar. "Ah, esse mês eu compro uma coisinha ali. Mês que vem eu vejo se to afim de algo mais. Ah, e vou usar a mesma roupa de ontem. Sair sem pentear o cabelo também."
  • Aqui é um paraíso pra quem gosta de carro. As estradas são M A R A V I L H O S A S e raramente aqui tem trânsito. Quando algo fico mais congestionado logo se resolve, porque ninguém faz "malandragem" de fila dupla, tripla ou avançar pelo acostamento. As pessoas esperam e logo está tudo andando como antes. Ou seja, dirigir de uma ponta a outra de Portugal é uma missão muito tranquila e relaxante, sem contar que as paisagens são incríveis. Ah, e as pessoas costumam correr muito por aqui. Até mesmo nas ruas estreitas os carros vem correndo, mas eles sempre param nas faixas de pedestre para você atravessar. Parece que você pisa na faixa e automaticamente o freio se aperta no carro. 
  • É outro mundo. Eu juro que eu queria saber como dizer isso tudo. Mas eu só digo que estive o tempo todo num lugar primitivo e eu não sei nem como reagir as coisas aqui. Tem wi-fi disponível em todo shopping e loja grande (e funciona mesmo). Não se paga estacionamento em shopping e lojas, você simplesmente entra e saí (!!!!!!!!!). Eu ainda não me acostumei em não ter que correr lá pro outro lado do shopping e gastar uma fortuna só pra deixar seu carro parado ali. Inclusive em alguns estacionamentos que eu fui tinha lugar para carregar aqueles carros meio doidos lá que tem tomada, sei lá como funciona. Só sei que tinha hahahaha. O Mc Donald's daqui tem a opção de esperar na fila (que não é quase nenhuma) ou ir num dos telões de touch screen e fazer o pedido e pagamento por lá mesmo. Ah, e nos dois casos você pega uma senha. Isso mesmo, Mc Donald's com senha. Eu nunca imaginei isso, gente. Socorro. Você senta e espera sua senha, e algumas vezes o funcionário traz todo sorridente o seu lanche à sua mesa. É tudo enorme, é tudo muito desenvolvido, é impressionante como as coisas funcionam da melhor forma possível. Essa loja de móveis que eu falei por exemplo, você vai vendo tudo montadinho num andar da loja, e anota o corredor e a sessão que eles se encontram no depósito, depois você desce lá e tá tudo empacotadinho pronto pra você levar. Chegando em casa tudo o que você precisa é ler o manual de instruções e ter uma parafusadeira em mãos. Voilá, você monta sua casa inteira sozinho. É tudo prático, bem pensado e desenvolvido para facilitar a vida de todo mundo. É absurdo, gente. Outra coisa que eu acho bem bizarra, para vocês terem ideia da qualidade de vida, é que quase todos os táxis daqui são Mercedes. 
  • É seguro e barato.. Aqui todo mundo se dá bem. É claro que é difícil você se tornar rico ostentação, mas também é difícil viver na miséria. Grande parte das pessoas consegue ter dinheiro para se estabelecer em uma vida tranquila, e com certeza isso influencia para não ter violência. Você pode andar a qualquer horário e em qualquer lugar que o risco de qualquer coisa acontecer é bem pequeno. E você pode ver isso em como as pessoas se sentem confortáveis na rua. Eu queria falar sobre o preço daqui, mas ninguém acredita em mim quando eu conto. Por isso vou dar só o exemplo de uma continha de oito cachorro-quentes grandes + quatro refrigerante refil + um café + um sorvete de iogurte que deu nada mais que 9 euros. N O V E. Ai senhor. 
  • No more assédio nas ruas o tempo todo ou carinhas malandrinhos que falam como se você fosse um pedaço de carne. Acho que não preciso de explicações maiores sobre isso. 
  • O céu aqui é muito mais azul. Aqui tá Outono e o clima de onde moro não poderia estar melhor. Está fazendo por volta de 10ºc, mas o sol nunca abandona. Aliás, o sol daqui brilha mais e é mais dourado. Acho que é porque não tem muita poluição - é cheio de campo por aqui onde moro e por Portugal inteiro. Parece que toda paisagem se intensifica e tudo se torna mais bonito.
  • As pessoas sabem se divertir com pouco. Parece que tudo é um grande evento. Na zona de Lisboa, Porto, Cascais e outros lugares tem de tudo. É puro luxo, vamos dizer assim. Mas aqui onde moro é uma zona mais "rural", vamos dizer assim. E é impressionante como tem vida. Tem vida em todo lugar. Não importa onde você vá, você vê gente - e melhor - rindo, se divertindo, jovens conversando e alguns dando uns amassos em uns parques por aí. Moro em cima de uma praça e ela está sempre cheia. Passo a madrugada toda ouvindo pessoas conversando e pegando táxi, e isso me conforta muito. É muito cheio de vida. Hoje mesmo de manhã estava um grupo enorme num palco montado dançando várias músicas, crianças, adolescentes, adultos. Também tem muitos programas de caridade: estão montando bazares e todo o valor será revertido para a Sexta-feira Solidária, que distribui para instituições de caridades. E é bonito ver como jovens e crianças já participam da causa com tanta vontade. Outra coisa muito interessante foram três homens de perna-de-pau que vi aqui panfletando sobre trabalhos voluntários. Sim, existe um lugar que você se escreve para ler história para idosos, acompanhá-los ao hospital, fazer passeios com eles, acompanhar crianças no percurso casa-escola e ajudá-las em estudos. Sério, gente, olha que tudo? Com certeza assim que me estabilizar eu entrarei em contato. Enfim, é lindo demais como as pessoas sabem viver aqui. Elas são muito felizes e unidas. Uma simples praça com um chafariz e algumas mesas se torna a maior festa. 
  • Nos ensinaram tudo errado sobre Portugal. Ouvi de muitas pessoas que aqui era tudo cinza e que eu ia sentir falta das praias brasileiras. Acontece que, mal sabem eles, que aqui tem de TUDO. Desde a áreas super modernas até áreas mais rurais - algumas que conseguem ser mais modernas que muitos lugares do centro do Rio de Janeiro. Há praias, muitas praias, muitas pessoas que surfam, que visitam as praias todas as manhãs. As pessoas aqui realmente sabem se divertir: elas juntam os amigos, sentam na praça e conversam como se aquele fosse o melhor lugar do mundo. Eu admito que eu to encantada com esse estilo de vida simples e alegre, e queria muito ter descoberto isso antes. 

 todas as fotos foram tiradas por mim e são de Évora apenas.

É claro que ainda fico oscilando (a noite então) e embora eu esteja apaixonada, meu coração ainda aperta porque não ter algumas pessoas comigo. Ainda não me estabeleci e tive a oportunidade de conhecer gente nova - ainda to me animando com a fase em que monto minha casa. Mas conheci algumas pessoas pela internet e elas foram super atenciosas e dispostas a me ajudar a conhecer tudo. Mas sem aquela maldade, sabe? Parece até impossível para quem lê - estamos acostumados com isso. Mas aqui a gente simplesmente sente. Sinto uma pureza incrível - mas como as pessoas são muito sinceras contigo em sentimentos bons, irritá-las não deve ser algo nada agradável. Tô louca para trazer essas pessoas tão especiais que eu sinto tanta falta no meu dia-a-dia para perto de mim. Hahahaha. Sim, isso mesmo, as que me animam dizendo "vou para aí, quero tanto ir pra aí, não aguento mais aqui", como eu era. Mas posso ser sincera? Se meus pais não me dessem um puxão de orelha, eu com certeza seria umas das que iria dar pra trás com medo do desconhecido. E eu não poderia estar mais errada. O mundo fora do Brasil é tão grande que eu nunca iria imaginá-lo como âmbito de comparação. Se eu soubesse o que iria encontrar nesse velho continente, eu teria vindo para cá muito antes. Eu só espero que o aperto no coração seja consolado e aí tudo ficará bem. Espero também poder ajudar a abrir porta para quem quer vir pra cá. Sei que ainda tenho muito o que descobrir, mas já me vejo me sentindo em casa aqui. É só uma questão de tempo e costume. Essa fase de mudança é a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida. Mas cada vez que eu saio por aqui percebo o quanto vale a pena. A vida é muito curta pra gente ficar em um lugar só.

Adeus, Brasil.

Dia primeiro embarquei do Rio de Janeiro rumo à Lisboa. Acho que me expressar sobre essa mudança é uma das coisas mais difíceis que eu já fiz e vou fazer na vida. Cheguei aqui dia 02 e só consegui me estabilizar pra escrever agora. Me estabilizar em muitos sentidos, aliás. Passei meses lendo blogs sobre experiências de pessoas que se mudaram para o exterior ou fizeram intercâmbio, e li todos os tipos de opiniões. Ainda assim, fui surpreendida. O mundo é louco, não é mesmo?
Me despedir do lugar que eu nasci foi a coisa mais estranha que aconteceu na minha vida. Já escrevi um post sobre essa sensação quando faltava ainda mais de um mês (link dele aqui). O engraçado é ler ele agora e perceber que ao mesmo tempo que tudo fez sentido, a vida conseguiu mudar ainda mais. Fui pega de surpresa: não recebi nada de algumas pessoas que eu esperava algo, e muito carinho veio de pessoas que eu nunca imaginei. E ao mesmo tempo que me decepcionei, achei a sensação de surpresa mais gostosa da minha vida.
Se despedir do Rio não foi um adeus apenas aos caminhos que eu fazia todas as manhãs, dos lugares que eu conhecia na palma da mão ou das pessoas queridas. Foi me despedir de uma parte de mim. Foi dizer adeus aos meus sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar. Aquelas paisagens não estariam mais a minha frente, nem o cheiro de maresia e muito menos o toque dos meus amigos. Estava abrindo mão de tudo. Abrindo mão de tudo o que me tornava eu - pelo menos foi o que eu pensei nesse tempo todo. Fiquei me perguntando: somos influência do que está à nossa volta ou o nosso redor reflete o que somos no interior? A cada momento encontrei uma resposta diferente, e ainda estou no percurso de descobrir. Eu era a minha vida ou a minha vida era eu? Meus calcanhares balançavam quando eu pensava em perder tudo. Me sentia me perdendo. Mas a ficha demorou a cair. Minha última semana no Brasil - a semana de despedida - foi incrível, mesmo muita coisa dando errado. Não consegui me despedir de amigos que sei que vou sentir falta e pessoas que eu achava que sentiria não fizeram lá tanto esforço assim. Mas guardo todos com carinho. Saí do Brasil com o pé direito, com toda certeza. A vida deu uma volta em tão pouco tempo e eu passei a associar o Brasil a sentidos que eu nunca associei antes.


Tenho o maior orgulho e felicidade do mundo de dizer que eu passei os meus últimos dias no Brasil da melhor forma possível. Com todo o carinho do mundo dos meus amigos, pessoas especiais demais pra um oceano separar - e se tudo der certo já avisei que meu novo apartamento tem dois quartos de hóspedes. Foi na minha última semana no Brasil apenas que eu lembrei o quanto a vida é gostosa de ser vivida. Meus últimos meses tinham sido de puro conflito interno por estar se mudando, tédio de estar sem aula e de saco cheio de algumas coisas do Brasil. Ainda feliz, mas sempre com aquele fundinho meio... Sei lá? Na minha última semana eu estava com tudo mais afiado, mas aprendi a relaxar. Eu acho que é um período da minha vida que eu nunca vou conseguir esquecer. Quando aquele avião decolou, ele certamente estava levando a menina mais feliz do Brasil. Carregava consigo uma mente cheia de boas lembranças, um coração confortado de carinhos dos amigos e um corpo muito bem beijado - por assim dizer. Guardo tanto amor nesse coração que não tem espaço pra mais nada. Tive os últimos-dias-em-território-brasileiro mais incríveis do mundo. Sou apaixonada por cada história deles.

Clique aqui para ouvir a música desse momento. ♥



Obrigada a cada um de vocês que tornou isso possível. 
Até logo ♥

Oculto.

"today my professor told me
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.

how comforting it is to know
one day i will have a body
you will have never touched."


Ilustração de Jean-François Painchaud
Texto de impactings

Projeto Zen.

Com o passar do ano a vida começa a pesar no nossos ombros. Mais responsabilidades, mais cobranças, mais ceticismo e cada vez mais resistência. Perdemos em grande parte a nossa ingenuidade de aproveitar as pequenas coisas: tudo tem que ser um grande evento, e mesmo quando eles acontecem, já não nos permitimos ficar tão felizes porque já conhecemos muita mágoa. De uns tempos para cá, notei a minha vida seguindo uma rotina toda errada. Uma rotina que não me fazia bem e acima de tudo: não me aproveitava. Não tirava o meu melhor. Nem perto nisso. Por algum motivo temos a tendência na vida a caminhar para um rumo de preguiça e preocupações. A cabeça fica a mil por hora o dia inteiro, temos coisas demais para fazer mas conseguimos enrolar o máximo possível, e, por incrível que pareça, deitamos no final do dia com aquele sentimento "minha vida é só isso?". Senti que nos últimos dois anos, pelo menos, foquei minha vida demais nos grandes acontecimentos e num vazio existencial, e esqueci da melhor parte da vida: aproveitar as pequenas coisas. Por isso, resolvi criar um projeto para mim mesma e para que possa servir de auxílio para todas as minhas amigas que querem, assim como eu, treinar a grande arte de aproveitar os momentos e ser uma pessoa mais calma com um cotidiano agradável. 

O Projeto.

O ideal é que o projeto comece no começo de algum mês, de preferência com uma data especial. Para ter aquele sentimento gostoso de renovação. De recomeço. Iniciarei o meu no dia 1 de Dezembro, porque é quando me mudarei de país, mas o primeiro dia do ano que vem parece super agradável para começar também! Ele consiste nas seguintes etapas:

 Rotina matinal
A forma de começar o dia com certeza define o seu humor. O objetivo principal dos meus dias será levar tudo com calma para que eu possa aproveitar todos os meus momentos com clareza, sem um turbilhão de pensamentos e emoções rondando minha mente. Claramente, a minha manhã vai marcar a minha forma de enxergar o resto do dia. Nada melhor do que acordar com vontade de viver. O primeiro grande passo é acordar pelo menos 30 minutos mais cedo do que deveria normalmente, para poder fazer tudo com calma. (enrolar na cama está estritamente proibido).

 Acordar cedo e iluminar o ambiente. Acordar cedo nos faz aproveitar melhor o dia. Ele rende mais, sobra mais tempo para fazer as coisas com gosto e sem aquele sentimento horrível de fazer tudo correndo com os minutos contados. A janela aberta tem que ser a primeira coisa a ser feita. Entrar luz e deixar o ar circular. Sentir a brisa. Nos libera hormônio de felicidade ♥

 Arrumar o quarto com uma boa playlist. O quarto é o seu cantinho especial, onde você descarrega e recarrega todas as suas energias. É bom que tudo esteja organizado para que elas fluam livremente e não se retenham ali. O ambiente também é algo que conta muito para o nosso humor. Além de nos influenciar positivamente estar num local limpo e confortável, evita estresses do tipo "cadê aquela x coisa????" (que convenhamos, é capaz de destruir qualquer bom humor). Ambiente equilibrado é sinônimo de mente equilibrada. Um estudo interessante também mostra que tendemos a ser mais preguiçosos e adiar atividades em ambientes bagunçados, que também inibe nossa criatividade e capacidade de pensar em acontecimentos com clareza. A partir desse passo, todos os outros se tornarão mais gostosos e agradáveis. A playlist é importante pra tornar esse momento "chato" em algo proveitoso.

 Acender um incenso quando tiver terminado. De preferência compre um estoque e use um para cada dia de semana. Ver o significado de cada essência também é interessante para que a gente crie uma atmosfera especial para cada dia. Além de tudo ele cria harmonia e neutraliza as energias do ambiente. O olfato é algo incrível e que deve ser explorado. O cheiro é capaz de mudar nosso humor completamente, e marcar grandes momentos. Muitas nostalgias são lembradas por cheiro, ainda que não consigamos identificá-lo especificamente. Marcar nossas boas vibrações de manhã com um cheiro é bom para que aquele aroma fique marcado como uma boa lembrança. Assim, todas as manhãs você lembrará da boa sensação que sentiu nas manhãs anteriores. Posteriormente, vamos ter um aroma que nos fará "sentir em casa" e será capaz de nos relaxar em várias situações. 


 Uma boa playlist
A música é algo essencial na vida. É sério, eu simplesmente não consigo imaginar o que seria do mundo sem a música. Ela é capaz de nos despertar emoções que podem nos tirar do fundo do poço e nos levar ao céu - ou o contrário. Existem dúzias de estudos sobre o efeito da música no nosso cérebro e como elas agem sobre nossas emoções. Eu acho super válido pesquisar sobre isso - mas não que seja preciso: a gente sente na pele as ações da música quase sempre. Resumindo um pouco, retirei um trecho de uma reportagem que já deixa bem claro a relação da playlist e o nosso "eu interior": "O intenso prazer que se sente ao escutar música provoca no cérebro a liberação de dopamina, um neurotransmissor que serve para avaliar ou recompensar prazeres específicos associados à alimentação, drogas ou dinheiro. De acordo com um estudo publicado na revista científica Nature Neuroscience, a dopamina serve para reforçar alguns comportamentos essenciais à sobrevivência (alimentação), ou pode ainda desempenhar um papel na motivação (recompensa secundária através do dinheiro). O que não se sabia, no entanto, era como a substância poderia estar envolvida no prazer abstrato - como ouvir música."
Tem sempre aquelas músicas que nos arrepiam e aceleram o coração, mas de uma forma que dizemos "meu deus, essa música é tão eu!". Existem músicas que resgatam quem somos de uma forma mágica, e eu juro que eu poderia ter um post inteiro dedicado a isso. São essas músicas, que nos deixam com vontade de viver, com orgulho de sermos nós, que mexem com a nossa alegria, que devem estar na playlist. Apenas essas. Músicas que nos fazem começar o dia bem e com bastante ânimo. Aquelas que você ouve no seu iPod (ainda to nessa época) na rua e sem querer acaba dançando por aí.

A minha playlist está aqui.

 Torne as obrigações do dia em prazeres
A rotina é lotada de obrigações: isso não temos como negar. Mas, se não podemos fugir delas, porque não transformar em momentos agradáveis? Isso serve para cozinhar, para trabalho, estudos e para outras coisas pequenas, como banhos. Mas, no momento, quero focar em só um deles.

 Transforme o seu banho em um dia no SPA. É isso mesmo, gente. Essa coisinha pequena e despercebida chamada banho. Costuma passar como uma parte batida do dia, mas não deveria. O banho tem propriedades relaxantes que eu nem sei listar. Já viu como todos os seus problemas parecem ter uma solução no banho? Ou como conseguimos pensar nos melhores argumentos para discussões? E aquela ideia de poema que vem bem na hora que você tá bem longe de poder escrever? Pois é. A água tem alguma coisa mágica aí no meio. Estar no banho é estar em contato com o nosso íntimo, visto que, somos 70% água, não é mesmo? E se é ela algo essencial para a vida, porque não nos renovarmos todos os dias debaixo dela? Apenas a lembrança da água descendo pelo nosso corpo já nos relaxa, esfria a nossa cabeça, e até cura aquelas bebedeiras horrendas. O banho é um momento de renovação de energias, e deve ser muito aproveitado. 

Tomar um banho calmo e em paz. Esquecer por todo esse tempo das obrigações e da hora. Deixar ele agir no nosso corpo. O banho deve ser algo relaxante e prazeroso. Chega de viver uma vida onde tudo é obrigação, onde fazemos tudo correndo e porque temos que fazer. Vamos tornar nossas obrigações pequenos prazeres, e sermos amigas do tempo para fazermos tudo com calma. Chega de preguiça pra deixar tudo pra ultima hora correndo. Ah, e depois do banho alguns momento de paz para passar o hidratante favorito. Um que eu gosto muito é o de coco! ♥ E se quiser aprender receitas naturais pra esfoliar e hidratar o rosto, vamos! É para sair se sentindo renovada do banho. Por isso é recomendável que ele seja tomado logo pela manhã, para que já se comece o dia nova em folha.

Outra coisa importante é tomar um banho com sal grosso todo final de mês para renovar as energias e começar a próxima etapa mensal com o astral limpo e livre de todas as negatividades que ficaram perdidas no meio do caminho. 

 Cronograma capilar just for fun e um cabelo macio de brinde. Pra que só lavar o cabelo, se podemos tornar o momento divertido e nos sentirmos cuidando um pouquinho? Cada resultado que vier vai ser um amor. Sem contar que é um momento ótimo pra explorar a criatividade com as receitas caseiras.  É bom para ocuparmos nossas mentes e nos sentirmos irmos a frente. Lavar o cabelo para de ser apenas parte do banho e passa a ser parte de fazer algo por você mesma. 


 Crie momentos
Há pouco tempo reparei algo que me entristeceu bastante: criei tendência a esperar os momentos acontecerem e esqueci de criá-los. Passava um dia após o outro esperando algo grandioso acontecer, e percebi que poderia criar várias pequenas coisas que iriam me fazer deitar no travesseiro me senti grande. E o pior, nada grandioso acontecia na minha vida. E nunca iria acontecer. Iria esperar sentada e bastante frustrada. Não se aprende a reconhecer as grandes coisas, se não sabe apreciar as pequenas. Se você não consegue encontrar prazer em algo mais leve, como você irá tirar prazer de algo enorme? É com as pequenas coisas que se treina. Então resolvi aprender a apreciar os pequenos momentos, e preencher meu dia com eles, para que eu nunca mais deite no travesseiro sentindo que nada aconteceu. 

 Tenha um potinho para bons momentos e use-o diariamente. Pelo menos uma vez no dia é preciso dobrar um pedacinho de papel com um bom acontecimento nele, bons sentimentos, ou qualquer coisa que tenha te feito se sentir bem naquele dia, e colocá-lo dentro do potinho com a data escrita no verso. O objetivo é abrir o pote apenas em alguma comemoração anual, como o último dia do ano com os amigos ou no Natal em família. Se você conseguir convencer mais pessoas a participarem fica mais legal ainda porque podem compartilhar as lembranças que quiserem. Isso tudo para que todo ano a gente lembre de pequenas, medianas e grandes coisas que aconteceram ao longo daquele período e possamos viver aquele momentinho de felicidade mais uma vez. 
 Tenha um caderninho de anotações e use-o diariamente. Pode ser autoral ou um texto que te inspirou naquele dia, mas precisa ter algo escrito ali. Use uma agenda, um modelo moleskine, um diário, ou o que te agradar. Faça rabiscos, desenhos ou um acróstico com o nome do crush. Só faça, a cada ano, um pedacinho de você em forma de livro. Uma espécie de diário moderno.

 Imprima suas fotos e tenha um álbum separado por ano. Aqui não tem números limites. Explore seus dias. Coloque todas as fotos que e marquem. Ao invés de postar no instagram apenas, separe numa pastinha e imprima no final do mês. Aquelas que você nunca postaria nas redes sociais e quer guardar só pra você também. Hoje em dia a forma que as fotos se perdem, se esquecem, me indigna. Parece tão passageira, tão efêmero e insignificante. Fico pensando como a nossa geração vai mostrar para os amigos e parentes do futuro os momentos do passado. Ou como vamos lembrar do nosso passado? Do rosto do nosso amigo ou do lugar em que visitamos? As fotos se perdem facilmente virtualmente, mas se eternizam em álbum. 

➎ Rotina noturna
Um dia que começou bem também deve acabar bem. Ir deitar na cama relaxado implica em uma boa noite de sono, o que influencia numa manhã bem acordada e assim o ciclo de paz e calma se renova.

 Tome um chá antes de dormir. Para ficar em paz. O ato de tomar chá é uma coisa muito calma e com paz, não sei porque. Descubra o seu sabor favorito e que mais te acalme. Curta o momento. 


 Decore um ambiente só seu
Voltando para o papo de energia, ter um lugar só seu é onde você pode renovar sua energia e ela fluir livremente. Tenha o seu porto-seguro, desde um pequeno pedaço dentro do quarto até o seu quarto inteiro. Decore, molde ele ao teu gosto e teu conforto. Pesquise na internet ambientes que te agradem e transforme o seu em um lugar único. Decore suas poltronas, calma, colchas e lençóis; mesinha de cabeceira, home office e, uma ideia que eu acho super: quadros. Torne o lugar seu. Todos nós precisamos de um lugar que nos represente e nos relembre a cada dia quem nós somos. Jogue a sua essência naquele lugar e torne-o leve. 

 Tenha uma planta de estimação e dê nome a ela. Ela será responsável por filtrar a energia do ambiente. Crie uma relação com a sua planta, se conecte a natureza. Se responsabilize por ela e se sinta grande numa relação de mutualismo.

 Dê significados às coisas
Essa é a essência de todas as etapas. Esse é o projeto em si. Se não houve esse passo, não há como sentir as mudanças. É preciso dar significado aos momentos, para que eles lhe deem prazer e sentimento de recompensa. O incenso, o chá, a flor, o banho, a música, a luz... Nada disso vai mudar a sua vida se não houve espaço para mudar dentro de você. Todos os significados que sabemos, fomos nós que demos. Aprendemos a dar. As coisas passam a ter significado a partir do momento em que damos a ela. Podemos treinar nosso cérebro para ver o significados acentuados em coisas boas ou em coisas ruins, e até mesmo para não ver significado nenhum: a rotina vazia da qual tentamos nos livrar. Nada é a toa, a não ser que você permita. Nada tem significado até que você dê o significado que você quer. O incenso não irá lhe trazer paz e boas vibrações até que você enxergue isso. Até que você saia de casa se sentindo bem porque renovou as energias do seu ambiente com ele. Esse é o primeiro passo, e o principal, para aprender a criar um dia repleto de paz e serenidade dentro do nosso ser. 



Um gato por semana: Lola.

Para a alegria dos amantes de gatos, resolvi criar uma tag para o meu blog. Yey. #umgatoporsemana vai ser um comprometimento meu de apresentar os gatos aqui de casa, já que são tantos (9) que se eu for fazer um único post vai ficar e n o r m e. Acho que vou até mesmo deixar como um projeto para postar também fotos de gatos que passaram aqui em casa em lar temporário, já que foram quase uns quarenta, pelo resto de tempo de vida do blog .
Essa é a Lola, Lolita para os íntimos. Ela foi a primeira gata que adotamos. Foi ela que abriu porta para todos os gatos que tive, que já cuidei ou que passei pela rua e soltei um "awwwwwn". Adotar um gato foi ideia da minha irmã (obrigada, irmãzinha). Eu nunca tive nada contra gatos - afinal eu sou uma grande amante de animais desde pequena - mas cresci ouvindo que gatos eram animais traiçoeiros e não desenvolviam afeição pelas pessoas (aquela história básica), por isso nunca me interessei muito. É claro que super apoiei a ideia. Inclusive minha mãe disse que se eu tirasse dez em todas as provas eu ia ganhar uma gatinha preta. Tentei estudar bastante. Mas meu ódio aos livros era maior. Terminei adotando doze gatos. Acho que em alguma coisa eu devo ter acertado... 
Minha mãe trouxe a Lola de uma feirinha de adoção, de surpresa. Ela foi a mimada da casa por muito tempo - até ter que dividir espaço com os outros. Mas parece que ela nunca perdeu a pose. Ela é oficialmente a gata da minha irmã, então eu não vejo muito ela pela casa, mas sempre que vejo fico brincando com ela cuspindo arco-íris. Ela é cheia de manias e se fosse uma pessoa com certeza será minha irmã. A Lola é minha irmã versão gato (não tem aquelas coisas que dizem que o animal de estimação pega as características do dono?). Foi com ela que aprendi a apreciar gato e me apaixonar perdidamente. Obrigada, Lolita.
Tenho lembranças mega gostosas com ela. Desde todas as descobertas do enorme mundo felino com gata-salsicha (exatamente, la é um gato rebaixado) até a semana que eu passei de cama com uma infecção renal péssima e ela ficou no meu colo o tempo todo vendo he Vampire Diaries comigo (também, quem resiste aos irmãos Salvatore?). Sou louca por essa gata modelo.


That's all, folks. Fotos tiradas por mim. <3

Mudar é nascer de novo.

Dia primeiro de Dezembro irei me mudar. Mudar de casa, de rua, de cidade, de estado, de país, de continente, de oceano, de ares, de clima, de placas e de correntes. A ideia por si soa como um borrão na minha cabeça. Um turbilhão de pensamentos ronda a minha mente, e por vez um ou outro paira no ar. Penso na sorte que tenho em ter a oportunidade de conhecer outro país com a mesma rapidez que sinto um buraco em meu peito em pensar em largar isso tudo. Preciso saber uma perspectiva para me prender, mas não consigo. Estou solta no espaço e tudo gira à minha volta. Agarro e solto, e nunca chego a lugar algum. Bem... Isso piorou um pouco mais hoje.
Caiu a ficha. Não apenas caiu, mas desabou. Desmoronou na minha cabeça e ruiu meu peito. Hoje olhei tudo à minha volta e pensei que um dia terei que me despedir. Menos de um mês e vou pisar na calçada do lado de fora da minha rua e vai ser a última vez (em pelo menos um bom tempo). Não vou mais ver a carinha de ursinho do meu cachorro, e nem sei como me despedir dele (infelizmente ele já é muito idoso e a viagem é de risco para ele, mas ele ficará com meus avós que vão se mudar pra a casa onde eu moro, e eles são apaixonados pelo Rocky e vice-versa). Vasculhei minhas gavetas e pensei que não falta muito para estarem vazias. Gavetas que tanto carregaram histórias e pedaços de mim, guardarão nada mais que ar e poeira. Pensei em coisas pequenas: na minha cama, na dispensa e na vista que não será mais minha. Mas tudo doeu imensamente. Percebi que um dia vou sair de casa e não vou voltar mais. Vou deixar pra trás tudo o que conheço. Em casa deixarei minha vida e nas ruas arborizadas do meu bairro deixarei pedacinhos de várias vidas para trás. Ficarão amores no meio do caminho e endereços dedecorados. Não andarei mais observando a casa e os prédios e sabendo as histórias de quem mora ali. Soa morbígeno. 

pôr-do-sol deixando tudo rosa. ♥

As pessoas. Essa é satiricamente a parte que mais me prende e mais me solta. Tem tantos lugares que eu passo todo dia e tem tantas histórias. A pracinha perto da minha casa é lar de onde eu vivi um grande amor. Na rua ao lado é onde ele mora. O restaurante aqui perto foi o primeiro encontro de alguém que me deu partes de um novo mundo. A rua em frente é onde ele mora. A esquina habita um prédio onde eu dei grandes gargalhadas com uma amiga. O shopping é onde eu peguei ônibus para a faculdade que eu me orgulhei, e conheci maravilhosas companhias. O banco do prédio vizinho foi onde ele chorou por mim. O portão da minha casa foi ponto de espera de pessoas incríveis que vieram me visitar. O jardim da minha casa foi travessia por muito tempo para o aconchego da família. A piscina já recebeu dezenas de visitantes - e a porta de vidro algumas cabeçadas amigas. A praia foi morada das melhores férias da minha vida. Proximamente, uma amiga me recebia só para me dar um ovomaltine ao leite - meu favorito. O bar pé sujo do bairro foi onde vivi um breve romance. No bairro ao lado, outros bares e outros romances. E o shopping que eu dei meu primeiro beijo? E... São tantos lugares e tantas histórias, que fico confusa. Só sei que nesse lugar, tem um pedacinho da minha história espalhado em cada canto. Revivo eles sempre que os visito - é inevitável - e assim me relembro de quem eu sou e quem já fui. Costumava me perguntar o que mais aqueles lugares me reservariam. 
É difícil deixar tudo pra trás. É uma tarefa árdua transformar: seja dentro de si ou de localização. E como mudar de país sem mudar o que você é? Eu sou formada de frações daqui. E sinceramente não faço ideia de como me despedir disso. É como me despedir de fragmentos de mim. De tudo que me marcou. Não sei como dizer "adeus" para pessoas que sempre esbarrei por aí. Vai doer pra caralho. Tá doendo já. É quase como morrer e nascer novamente a um oceano de distância. Por fora me sinto estável, mas no meu interior é como se houvesse um serzinho independente, e ele chora o dia todo. Como deixar toda sua vida pra trás e recomeçar? Eu já recomecei tantas vezes aqui que já me sinto exausta dessa aflição. A verdade é que morando no mesmo lugar, eu nunca perdi tais coisas de fato. Querendo ou não, elas sempre estiveram ali, ao meu alcance. Mas agora se vão... Quer dizer, eu me vou. Eu me despeço. E eu digo, com toda certeza desse mundo, como quem já esteve nas duas posições: se despedir é muito mais difícil do que receber a despedida
Por outro lado, sei que tenho que passar por isso para me dar uma chance. Não é aqui que eu pertenço. Esse não é o meu lugar, e isso é inegável. Recomeçar é uma dádiva. Ficam para trás as coisas boas, mas também se vão as coisas ruins. Vou renascer. O mundo é muito maior do que meu braço alcança aqui. Ainda há muito mais para viver. Para sentir. Para conhecer. Requer coragem. E coragem é justamente sobre sentir seu coração se espremer dentro do seu peito, mas vasculhar no fundo da sua mente qualquer razão para seguir em frente e se agarrar nisso. Eu quero me mudar. Eu quero muito me mudar! Conhecer uma vida nova. Eu preciso disso. Mas isso não quer dizer que seja fácil se desprender. 
O mundo gira de tal forma, que sempre nos surpreende. Há oito anos eu voltava para o Brasil prometendo que nunca mais o deixaria, me sentindo no meu lar finalmente. Hoje, percebo que não me encaixo aqui. Acho que meu maior conflito é porque eu não me sinto encaixada em lugar nenhum. Não to nem lá, nem cá. Tudo parece inseguro. Sabe-se lá onde vou estar na próxima década? Ou menos que isso. O tempo passa, e o diferente se torna constante. Nós nos adaptamos a tudo, e o tempo é a maior dádiva que temos. Sigo conflitante, tremendo só de pensar no momento em que terei que me despedir - de tudo, de todos e de mim -. Mas esperançosa. Por outro lado, quando passa o susto da despedida, penso que aqui dentro do meu peito, nada do que eu vivi nunca se apagará. Algumas pessoas e momentos estão enraizados dentro de mim. Breves ou marcantes. E eu rego com carinho. Onde quer que esteja. Quando quer que eu esteja.

Clique para ouvir a música do dia.



"When you feel like quitting, remember why you started."

Cessão.



"Você arruína a sua vida se dessensibilizando. Todos nós temos medo de dizer demais, de sentir intensamente, de deixar as pessoas saberem o que elas significam para nós. Se importar não é sinônimo de loucura. Demonstrar para alguém o quanto eles são especiais irá te tornar vulnerável. Não tem como negar isso. Entretanto, não há do que sentir vergonha. Há algo extremamente maravilhoso nos pequenos momentos que acontecem quando você se abre e é honesto com aqueles que são importantes para você. Deixe aquela pessoa saber que ela te inspira. Diga para sua mãe que você a ama em frente aos seus amigos. Seja, expresse  e manifeste. Se abra, não se feche para o mundo, e seja atrevido em quem e como você ama. Há muita coragem nisso."

- Bianca Sparacino.

Constelações individuais.

Aviso: esse é um eyes appreciation post. Altos riscos de você lembrar dos olhos do crush e a bad bater. Não me responsabilizo. ♥

Divulgou-se em um estudo recente que a paixão acontece pelos olhos. Costuma-se também dizer por aí que os olhos são os espelhos d'alma. Coincidência ou não, faz todo o sentido. Eu nunca fui boa de memória. Cresci embaçando rostos, confundindo cores de cabelos e associando pessoas a personagens famosos (como por exemplo o meu pai biológico que eu associava ao Renato Russo - foi me dito posteriormente que ele não tem n a d a a ver). Mas eu nunca esqueci de um par de olhos. Alguns apenas relapsos, outros marcantes - que me instigaram noites a fora. Quem nunca na vida se apaixonou perdidamente por um par de olhos? Quem nunca olhou no fundo dos olhos de alguém e descobriu duas galáxias cheias de imensas constelações perdidas em fundos multicoloridos? 
Tudo se inicia com uma troca de olhares. E tudo acaba em troca de olhares. Sempre achei o olhar algo fascinante: tudo começou quando percebi o quão profundo meus gatos olhavam diretamente para os meus olhos para se comunicar comigo. Fiquei me perguntando como poderia o nosso olhar ser algo tão incrível que a própria natureza era feita para o reconhecer, em variantes formas de vida. Como até mesmo os meus pequenos felinos semi-selvagens conseguiam reconhecer tão bem que tudo o que eu tinha pra dizer estava parado ali, em um par de círculos castanhos? O olhar é uma magia que até hoje eu não entendi.


E deus me livre um dia compreendê-la. É arrebatador o mistério de sentir o pescoço queimar quando há alguém te olhando no cômodo. Talvez, tirando de fundamentos da minha própria cabeça, o olhar seja algo tão carregado em energia que emane calor. A gente simplesmente sabe que há alguém fixo em nós. A gente sente o olhar atravessando nosso corpo, vasculhando a nossa alma. Não há nada nesse mundo mais incrível do que olhar no fundo deles e tentar compreender como podem dizer tanto. É uma tela pintada com borrões e riscos de cores variadas. É uma arte. É mais que isso. É um milagre. Olhos, olhos, olhos em todo lugar! Para onde quer que vá, você está observando e sendo observado. É neles que está a essência do ser. Através deles você vê a bondade, a maldade, as intenções, a verdade, a mentira, a tristeza, a felicidade, o arrependimento. Poderosos, são capazes de honrar e destruir um ser em questão de segundos. Os olhos nunca enganam. Carregam por aí todos os dizeres da sua alma. São pontiagudos como facas e meigos como coxins. Mas de fato, descobri da forma mais incrível que os olhos exalam sexo. Emitem a essência de cada um, nua e crua. Dançam e penetram em outro ser. As duas galáxias se encontram e há uma explosão. Big bang. Expansão. O olhar te corta e suga teu ser. Possui e se espalha. O meu poema favorito de minha autoria não poderia ser de outra coisa senão sobre olhos. Olhos são poemas ambulantes.
"Meia-noite
e eu tentando lembrar dos teus
olhos,
multicoloridos,
atravessando meu
corpo
como os dentes de uma pantera
cortam uma jugular. 
Os olhos vermelhos
em herbácea
imensos à minha frente
- como se não houvesse
mais nada nesse mundo,
como se
o mundo se bastasse neles -
conduziam-me em arrepios
enquanto o colo
rebolava. 
Lembrei-me que um dia
era aquele universo caleidoscópico,
policromático,
quem me cabia por
todas as manhãs de Primavera
e a quem inundei
nos dias de Verão. 
Em meio ao ocre,
verde,
e um intruso dourado,
refletia-se em tons pastéis
o loiro do meu cabelo
e a curva dos meus seios.
Olhos dissimulados não me
largavam.
Iam à fundo.
Grudados
magnetizados
- eu positivo e você negativo.
Levavam embora tudo o que eu tinha,
roubavam
minha alma,
sem
pestanejar. 
Incontingentes
instigantes
inconsoláveis.
Carregavam por aí tudo
o que eu já fora
alguma vez. 
E tudo
o que
eu sempre
serei."  
Os olhos conectam as almas, espancam, saram e transam como o bando de leoas encurrala sua presa. Não há nada mais esplêndido nesse mundo do que uma troca de olhares. Nunca haverão palavras que traduzam a linguagem de um olhar. Fecha-se as pálpebras e os olhos dele ainda estão ali, fixos em você.