Morar no exterior é o sonho de muitos brasileiros. Eu, sem sombra de dúvidas, estava dentro dessa estatística. De uns meses pra cá meus pais começaram com um papo de se mudar. É claro que a Europa tava no topo da lista: a simplicidade da vida européia sempre me atraiu. Se eu acreditasse em reencarnação teria certeza que em alguma vida fui muito feliz naquele continente. Como não acredito, passei a pesquisar em blogs e vlogs sobre o tal estilo de vida europeu que tanto me atraiu, e descobri que era lá que eu me encaixava melhor. Aliás, isso tinha tudo a ver com a minha motivação para sair do Brasil: eu sentia que não me encaixava mais lá. O lugar, as pessoas, os pensamentos e a forma de viver... Parecia que eu estava no lugar errado o tempo inteiro.
Hoje estou aqui, pisando em solo europeu, separada da Espanha, França, Alemanha, Holanda e onde quiser, por uma linha de trem e não mais por um oceano. Portugal foi escolhido pela facilidade do idioma e das oportunidades aqui devido ao fluxo luso-brasileiro. Morei aqui por três anos, chegando aqui aos sete, mas quando retornei a esses solos já não me lembrava de mais nada. Foi um baque. Passei meses idealizando esse lugar - devo dizer que ele superou minhas expectativas - e pesquisando sobre as experiências de outras pessoas. Todas elas diziam a mesma coisa: o começo é difícil, por mais que você saiba que é o melhor. O negócio é que eu nunca imaginei que o começo fosse tão difícil. Provavelmente você que está lendo isso não vai conseguir fazer ideia do quão difícil é o começo, assim como eu. Mas com começo eu quero dizer aquele começo bem comecinho mesmo... O primeiro dia. Quando cheguei na minha nova casa, por dentro dos muros de Évora e me deparei com o frio correndo pelos cômodos vazios da minha casa, a única coisa que eu queria era me enfiar no primeiro vôo para o Brasil. Na verdade, nem isso. Eu queria mesmo é voltar no tempo e nunca ter entrado naquele avião - porque eu não quero ver mais 9 horas de vôo tão cedo. Olhei em volta e a casa estava completamente vazia. Três andares, sete quartos, quatro salas, uma cozinha enorme, dispensa e área ao ar livre, preenchido só com paredes e portas. Comparada a minha casa de quatro quartos e uma única sala conjunta com a cozinha, parecia um sonho em teoria. Mas faltavam meus móveis, meus conforto, um sofá para sentar e assistir a TV com calma (ah sim, tinha uma televisão). Faltava um lugar para eu chamar de meu. Olhei pela janela e me deparei com pessoas que não falavam a minha língua exatamente - não nos entediamos muito bem pelo sotaque - e que eu julguei que sempre iriam me ver como "estrangeira". Pensei que para poder sair com as pessoas que eu mais gostava eu teria que atravessar um oceano inteiro, e foi aí que o coração apertou mais forte. Eu só me perguntava que porra eu tava fazendo. Como eu tinha largado tudo assim? Me sentia invadindo e sendo invadida. Mais que isso, eu me sentia vazia, como se tudo tivesse sido arrancado de mim. Bateu o primeiro desespero: eu não conseguia nem enxergar mais nada além da dor que eu tava sentindo. Tive uma crise de pânico horrível e não conseguia respirar, parar de chorar e não tremer. Eu sussurrava, quando tinha fôlego, que tudo o que eu queria era ter minha vida normal. Agora eu estava ali, num lugar desconhecido e sem volta. O segundo desespero veio quando eu percebi que eu não me sentia pertencendo a lugar nenhum. O Brasil não me satisfazia, era muito mais ou menos para eu voltar, mas aqui me faltava vida e pessoas que me completavam, alegravam. Me vi sem lugar, sem rumo e o pior de tudo: sem esperança. O desespero parecia que nunca ia passar, e tudo o que eu queria era voltar há três anos atrás quando a minha vida era normal. A questão é que eu sabia também que o Brasil mudou de três anos pra cá. Pessoas mais violentas, a responsabilidade de lidar com as burocracias e o país que não funciona, a forma estressante e baixa de qualidade de vida. Eu chorei durante o dia todo, cansada do vôo em que não consegui dormir, e eu não consigo descrever a dor que eu senti naquele momento porque não quero me lembrar. Mas foi quase como morrer - ou desejar morrer.
E bom, esse foi meu primeiro dia. Um desespero e dor que eu achei que nunca fosse passar. E passou de uma forma incrível quando eu comecei a abrir meus olhos e, principalmente, meu coração. Tudo melhorou a noite. Eu moro em frente a uma praça muito movimentada, praticamente o centro do distrito onde moro. Ouvia da minha janela pessoas conversando durante toda a madrugada de quarta-feira. Pessoas vivendo com paz, em paz. Calmas. Alegres. E percebi que eu estava vendo tudo errado. Minha visão estava embaçada olhando para coisas que deixei pra trás - e muitas coisas que eu só achava que deixei, mas continuo carregando comigo, como algumas pessoas. Aquelas vozes me consolaram. As vozes dos tais desconhecidos, com o sotaque diferente e a quem eu achei que nunca fossem me ver como se ali também fosse meu lar. E na manhã seguinte, eu estava renovada. A partir daí, a vida se ornou incrível, e eu finalmente pude enxergar tudo aquilo que eu tinha lido sobre. É claro que eu também tinha tomado nota de todos os avisos que li "é normal se desesperar no primeiro dia, afinal é uma mudança muito grande, é uma vida nova". Mas eu tenho que dizer uma coisa: depois do primeiro passo para o exterior, o caminho que se abre é a melhor sensação do mundo.
explorando a pé o lugar onde moro.
Todas os brasileiros que sentem que o Brasil não é mais o seu lar deveriam tomar coragem e se mudar. Sério, eu super topo ser um incentivo a vocês. Eu gostaria que cada amigo meu que quer se mudar, se mudasse, explorasse comigo e consigo. Descobri que gastei muito tempo da minha vida num lugar que era pequeno demais para mim. Nesses últimos dois dias explorei Portugal de peito aberto, com o coração grande. E vos digo que: ESTOU APAIXONADA. A ideia de se mudar e recomeçar toda a sua vida pode parecer loucura, até mesmo quando se está aqui, mas você irá perceber que o mundo é muito maior do que se imagina.
- As pessoas aqui são muito simpáticas. Cresci ouvindo - tal como grande parte do mundo - que o povo brasileiro é simpático (o que contradiz pesquisas que mostram que o povo brasileiro é o que menos sorri atendendo pessoas no trabalho hahaha). Devo dizer que os portugueses estão dando de mil a zero em muitas pessoas que encontrei pelas ruas no Brasil. É claro que não são todos, assim como não são todos os brasileiros também. A simpatia falsa aqui não existe. As pessoas falam o que se passam na cabeça - e por isso muitas vezes são mal interpretados. Elas são sinceras contigo.. Se eles estão sendo simpáticos, é porque eles estão realmente de bom humor, e aparentemente as pessoas estão muito de bem com a vida por aqui. Aquele povo a quem fiquei com medo de nunca me aceitarem como alguém além de estrangeira nunca me olhou diferente. Pelo contrário, fui tratada com carinho nas palavras por todas as pessoas que encontrei. Elas se prestam a te ajudar e a te dar dicas e informações sobre tudo! Vou dar alguns exemplos. Esses dias estava numa loja de móveis (tenho que falar sobre ela!!!!) e estava tampando a passagem (epa) de um senhor que queria ver o pé de mesa que eu estava cobrindo. Quando o vi atrás de mim levei um susto e abri espaço para ele pedindo desculpas. Ele então deu um sorriso e começou a indicar pra mim e minha família qual pé de mesa a gente deveria levar pelas experiências que ele teve. Outro exemplo foi quando meu pai foi comprar um microondas, e o vendedor - que ganha por comissão - pediu pro meu pai voltar no dia seguinte porque iria estar com desconto, Ou o cara da empresa da internet que indiciou a concorrente porque oferecia melhor o plano que meu pai queria. Eu não sei como explicar, mas parece que pessoas que querem tirar vantagem das outras são muito raras por aqui. As pessoas parecem unidas pra te ajudar. Te dão informações sempre muito atenciosas, e te atendem sempre sorrindo. Brincam, explicam tudo direitinho e te ajudam de todas as formas que podem. Fiquei tão preocupada achando que seria uma "estranha" aqui e eles me abraçaram e me acolheram mais que meu próprio povo.
- Ninguém está nem aí pra você. É sério, gente. Eu não faço ideia de como explicar isso, mas as pessoas andam na rua num mundo só delas. E isso é ótimo! Elas não estão nem aí se você está bem vestida, mal vestida, com uma melancia na cabeça ou qualquer coisa assim. É um sentimento muito bom que eu nunca senti antes, como se você pudesse andar na rua sem ninguém estar te julgando. Você é e simplesmente é. Ninguém está tomando conta da sua vida. Você consegue notar nas pessoas que elas estão vestidas para elas mesmas e da forma que lhes agrada apenas. Ninguém fica te olhando porque você tá fazendo pose em frente a um monumento ou qualquer coisa assim. Muito menos pela forma que você age ou se veste. Você pode viver num mundo sem se preocupar com o resto. E é um puta alívio da cobrança que eu estava acostumada, de ter que estar sempre impecável e fazendo tudo certo para as pessoas não saírem por aí comentando. Ah, e o seu consumismo diminui muito. É algo que flui. Você simplesmente deixa de se importar. "Ah, esse mês eu compro uma coisinha ali. Mês que vem eu vejo se to afim de algo mais. Ah, e vou usar a mesma roupa de ontem. Sair sem pentear o cabelo também."
- Aqui é um paraíso pra quem gosta de carro. As estradas são M A R A V I L H O S A S e raramente aqui tem trânsito. Quando algo fico mais congestionado logo se resolve, porque ninguém faz "malandragem" de fila dupla, tripla ou avançar pelo acostamento. As pessoas esperam e logo está tudo andando como antes. Ou seja, dirigir de uma ponta a outra de Portugal é uma missão muito tranquila e relaxante, sem contar que as paisagens são incríveis. Ah, e as pessoas costumam correr muito por aqui. Até mesmo nas ruas estreitas os carros vem correndo, mas eles sempre param nas faixas de pedestre para você atravessar. Parece que você pisa na faixa e automaticamente o freio se aperta no carro.
- É outro mundo. Eu juro que eu queria saber como dizer isso tudo. Mas eu só digo que estive o tempo todo num lugar primitivo e eu não sei nem como reagir as coisas aqui. Tem wi-fi disponível em todo shopping e loja grande (e funciona mesmo). Não se paga estacionamento em shopping e lojas, você simplesmente entra e saí (!!!!!!!!!). Eu ainda não me acostumei em não ter que correr lá pro outro lado do shopping e gastar uma fortuna só pra deixar seu carro parado ali. Inclusive em alguns estacionamentos que eu fui tinha lugar para carregar aqueles carros meio doidos lá que tem tomada, sei lá como funciona. Só sei que tinha hahahaha. O Mc Donald's daqui tem a opção de esperar na fila (que não é quase nenhuma) ou ir num dos telões de touch screen e fazer o pedido e pagamento por lá mesmo. Ah, e nos dois casos você pega uma senha. Isso mesmo, Mc Donald's com senha. Eu nunca imaginei isso, gente. Socorro. Você senta e espera sua senha, e algumas vezes o funcionário traz todo sorridente o seu lanche à sua mesa. É tudo enorme, é tudo muito desenvolvido, é impressionante como as coisas funcionam da melhor forma possível. Essa loja de móveis que eu falei por exemplo, você vai vendo tudo montadinho num andar da loja, e anota o corredor e a sessão que eles se encontram no depósito, depois você desce lá e tá tudo empacotadinho pronto pra você levar. Chegando em casa tudo o que você precisa é ler o manual de instruções e ter uma parafusadeira em mãos. Voilá, você monta sua casa inteira sozinho. É tudo prático, bem pensado e desenvolvido para facilitar a vida de todo mundo. É absurdo, gente. Outra coisa que eu acho bem bizarra, para vocês terem ideia da qualidade de vida, é que quase todos os táxis daqui são Mercedes.
- É seguro e barato.. Aqui todo mundo se dá bem. É claro que é difícil você se tornar rico ostentação, mas também é difícil viver na miséria. Grande parte das pessoas consegue ter dinheiro para se estabelecer em uma vida tranquila, e com certeza isso influencia para não ter violência. Você pode andar a qualquer horário e em qualquer lugar que o risco de qualquer coisa acontecer é bem pequeno. E você pode ver isso em como as pessoas se sentem confortáveis na rua. Eu queria falar sobre o preço daqui, mas ninguém acredita em mim quando eu conto. Por isso vou dar só o exemplo de uma continha de oito cachorro-quentes grandes + quatro refrigerante refil + um café + um sorvete de iogurte que deu nada mais que 9 euros. N O V E. Ai senhor.
- No more assédio nas ruas o tempo todo ou carinhas malandrinhos que falam como se você fosse um pedaço de carne. Acho que não preciso de explicações maiores sobre isso.
- O céu aqui é muito mais azul. Aqui tá Outono e o clima de onde moro não poderia estar melhor. Está fazendo por volta de 10ºc, mas o sol nunca abandona. Aliás, o sol daqui brilha mais e é mais dourado. Acho que é porque não tem muita poluição - é cheio de campo por aqui onde moro e por Portugal inteiro. Parece que toda paisagem se intensifica e tudo se torna mais bonito.
- As pessoas sabem se divertir com pouco. Parece que tudo é um grande evento. Na zona de Lisboa, Porto, Cascais e outros lugares tem de tudo. É puro luxo, vamos dizer assim. Mas aqui onde moro é uma zona mais "rural", vamos dizer assim. E é impressionante como tem vida. Tem vida em todo lugar. Não importa onde você vá, você vê gente - e melhor - rindo, se divertindo, jovens conversando e alguns dando uns amassos em uns parques por aí. Moro em cima de uma praça e ela está sempre cheia. Passo a madrugada toda ouvindo pessoas conversando e pegando táxi, e isso me conforta muito. É muito cheio de vida. Hoje mesmo de manhã estava um grupo enorme num palco montado dançando várias músicas, crianças, adolescentes, adultos. Também tem muitos programas de caridade: estão montando bazares e todo o valor será revertido para a Sexta-feira Solidária, que distribui para instituições de caridades. E é bonito ver como jovens e crianças já participam da causa com tanta vontade. Outra coisa muito interessante foram três homens de perna-de-pau que vi aqui panfletando sobre trabalhos voluntários. Sim, existe um lugar que você se escreve para ler história para idosos, acompanhá-los ao hospital, fazer passeios com eles, acompanhar crianças no percurso casa-escola e ajudá-las em estudos. Sério, gente, olha que tudo? Com certeza assim que me estabilizar eu entrarei em contato. Enfim, é lindo demais como as pessoas sabem viver aqui. Elas são muito felizes e unidas. Uma simples praça com um chafariz e algumas mesas se torna a maior festa.
- Nos ensinaram tudo errado sobre Portugal. Ouvi de muitas pessoas que aqui era tudo cinza e que eu ia sentir falta das praias brasileiras. Acontece que, mal sabem eles, que aqui tem de TUDO. Desde a áreas super modernas até áreas mais rurais - algumas que conseguem ser mais modernas que muitos lugares do centro do Rio de Janeiro. Há praias, muitas praias, muitas pessoas que surfam, que visitam as praias todas as manhãs. As pessoas aqui realmente sabem se divertir: elas juntam os amigos, sentam na praça e conversam como se aquele fosse o melhor lugar do mundo. Eu admito que eu to encantada com esse estilo de vida simples e alegre, e queria muito ter descoberto isso antes.
todas as fotos foram tiradas por mim e são de Évora apenas.
É claro que ainda fico oscilando (a noite então) e embora eu esteja apaixonada, meu coração ainda aperta porque não ter algumas pessoas comigo. Ainda não me estabeleci e tive a oportunidade de conhecer gente nova - ainda to me animando com a fase em que monto minha casa. Mas conheci algumas pessoas pela internet e elas foram super atenciosas e dispostas a me ajudar a conhecer tudo. Mas sem aquela maldade, sabe? Parece até impossível para quem lê - estamos acostumados com isso. Mas aqui a gente simplesmente sente. Sinto uma pureza incrível - mas como as pessoas são muito sinceras contigo em sentimentos bons, irritá-las não deve ser algo nada agradável. Tô louca para trazer essas pessoas tão especiais que eu sinto tanta falta no meu dia-a-dia para perto de mim. Hahahaha. Sim, isso mesmo, as que me animam dizendo "vou para aí, quero tanto ir pra aí, não aguento mais aqui", como eu era. Mas posso ser sincera? Se meus pais não me dessem um puxão de orelha, eu com certeza seria umas das que iria dar pra trás com medo do desconhecido. E eu não poderia estar mais errada. O mundo fora do Brasil é tão grande que eu nunca iria imaginá-lo como âmbito de comparação. Se eu soubesse o que iria encontrar nesse velho continente, eu teria vindo para cá muito antes. Eu só espero que o aperto no coração seja consolado e aí tudo ficará bem. Espero também poder ajudar a abrir porta para quem quer vir pra cá. Sei que ainda tenho muito o que descobrir, mas já me vejo me sentindo em casa aqui. É só uma questão de tempo e costume. Essa fase de mudança é a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida. Mas cada vez que eu saio por aqui percebo o quanto vale a pena. A vida é muito curta pra gente ficar em um lugar só.
















