Mudar é nascer de novo.

Dia primeiro de Dezembro irei me mudar. Mudar de casa, de rua, de cidade, de estado, de país, de continente, de oceano, de ares, de clima, de placas e de correntes. A ideia por si soa como um borrão na minha cabeça. Um turbilhão de pensamentos ronda a minha mente, e por vez um ou outro paira no ar. Penso na sorte que tenho em ter a oportunidade de conhecer outro país com a mesma rapidez que sinto um buraco em meu peito em pensar em largar isso tudo. Preciso saber uma perspectiva para me prender, mas não consigo. Estou solta no espaço e tudo gira à minha volta. Agarro e solto, e nunca chego a lugar algum. Bem... Isso piorou um pouco mais hoje.
Caiu a ficha. Não apenas caiu, mas desabou. Desmoronou na minha cabeça e ruiu meu peito. Hoje olhei tudo à minha volta e pensei que um dia terei que me despedir. Menos de um mês e vou pisar na calçada do lado de fora da minha rua e vai ser a última vez (em pelo menos um bom tempo). Não vou mais ver a carinha de ursinho do meu cachorro, e nem sei como me despedir dele (infelizmente ele já é muito idoso e a viagem é de risco para ele, mas ele ficará com meus avós que vão se mudar pra a casa onde eu moro, e eles são apaixonados pelo Rocky e vice-versa). Vasculhei minhas gavetas e pensei que não falta muito para estarem vazias. Gavetas que tanto carregaram histórias e pedaços de mim, guardarão nada mais que ar e poeira. Pensei em coisas pequenas: na minha cama, na dispensa e na vista que não será mais minha. Mas tudo doeu imensamente. Percebi que um dia vou sair de casa e não vou voltar mais. Vou deixar pra trás tudo o que conheço. Em casa deixarei minha vida e nas ruas arborizadas do meu bairro deixarei pedacinhos de várias vidas para trás. Ficarão amores no meio do caminho e endereços dedecorados. Não andarei mais observando a casa e os prédios e sabendo as histórias de quem mora ali. Soa morbígeno. 

pôr-do-sol deixando tudo rosa. ♥

As pessoas. Essa é satiricamente a parte que mais me prende e mais me solta. Tem tantos lugares que eu passo todo dia e tem tantas histórias. A pracinha perto da minha casa é lar de onde eu vivi um grande amor. Na rua ao lado é onde ele mora. O restaurante aqui perto foi o primeiro encontro de alguém que me deu partes de um novo mundo. A rua em frente é onde ele mora. A esquina habita um prédio onde eu dei grandes gargalhadas com uma amiga. O shopping é onde eu peguei ônibus para a faculdade que eu me orgulhei, e conheci maravilhosas companhias. O banco do prédio vizinho foi onde ele chorou por mim. O portão da minha casa foi ponto de espera de pessoas incríveis que vieram me visitar. O jardim da minha casa foi travessia por muito tempo para o aconchego da família. A piscina já recebeu dezenas de visitantes - e a porta de vidro algumas cabeçadas amigas. A praia foi morada das melhores férias da minha vida. Proximamente, uma amiga me recebia só para me dar um ovomaltine ao leite - meu favorito. O bar pé sujo do bairro foi onde vivi um breve romance. No bairro ao lado, outros bares e outros romances. E o shopping que eu dei meu primeiro beijo? E... São tantos lugares e tantas histórias, que fico confusa. Só sei que nesse lugar, tem um pedacinho da minha história espalhado em cada canto. Revivo eles sempre que os visito - é inevitável - e assim me relembro de quem eu sou e quem já fui. Costumava me perguntar o que mais aqueles lugares me reservariam. 
É difícil deixar tudo pra trás. É uma tarefa árdua transformar: seja dentro de si ou de localização. E como mudar de país sem mudar o que você é? Eu sou formada de frações daqui. E sinceramente não faço ideia de como me despedir disso. É como me despedir de fragmentos de mim. De tudo que me marcou. Não sei como dizer "adeus" para pessoas que sempre esbarrei por aí. Vai doer pra caralho. Tá doendo já. É quase como morrer e nascer novamente a um oceano de distância. Por fora me sinto estável, mas no meu interior é como se houvesse um serzinho independente, e ele chora o dia todo. Como deixar toda sua vida pra trás e recomeçar? Eu já recomecei tantas vezes aqui que já me sinto exausta dessa aflição. A verdade é que morando no mesmo lugar, eu nunca perdi tais coisas de fato. Querendo ou não, elas sempre estiveram ali, ao meu alcance. Mas agora se vão... Quer dizer, eu me vou. Eu me despeço. E eu digo, com toda certeza desse mundo, como quem já esteve nas duas posições: se despedir é muito mais difícil do que receber a despedida
Por outro lado, sei que tenho que passar por isso para me dar uma chance. Não é aqui que eu pertenço. Esse não é o meu lugar, e isso é inegável. Recomeçar é uma dádiva. Ficam para trás as coisas boas, mas também se vão as coisas ruins. Vou renascer. O mundo é muito maior do que meu braço alcança aqui. Ainda há muito mais para viver. Para sentir. Para conhecer. Requer coragem. E coragem é justamente sobre sentir seu coração se espremer dentro do seu peito, mas vasculhar no fundo da sua mente qualquer razão para seguir em frente e se agarrar nisso. Eu quero me mudar. Eu quero muito me mudar! Conhecer uma vida nova. Eu preciso disso. Mas isso não quer dizer que seja fácil se desprender. 
O mundo gira de tal forma, que sempre nos surpreende. Há oito anos eu voltava para o Brasil prometendo que nunca mais o deixaria, me sentindo no meu lar finalmente. Hoje, percebo que não me encaixo aqui. Acho que meu maior conflito é porque eu não me sinto encaixada em lugar nenhum. Não to nem lá, nem cá. Tudo parece inseguro. Sabe-se lá onde vou estar na próxima década? Ou menos que isso. O tempo passa, e o diferente se torna constante. Nós nos adaptamos a tudo, e o tempo é a maior dádiva que temos. Sigo conflitante, tremendo só de pensar no momento em que terei que me despedir - de tudo, de todos e de mim -. Mas esperançosa. Por outro lado, quando passa o susto da despedida, penso que aqui dentro do meu peito, nada do que eu vivi nunca se apagará. Algumas pessoas e momentos estão enraizados dentro de mim. Breves ou marcantes. E eu rego com carinho. Onde quer que esteja. Quando quer que eu esteja.

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"When you feel like quitting, remember why you started."

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